DOI: 10.22278/2318-2660.2018.v42.n3.a2815

ARTIGO ORIGINAL DE TEMA LIVRE

FATORES ANTROPOMÉTRICOS RELACIONADOS À INSATISFAÇÃO COM A IMAGEM CORPORAL EM ADOLESCENTES

Ana Paula Fernandes Gomesa

Nayara Sanson de Souzab

Shenara Lamberg Vidalc

Marcelo Castanheirad

Resumo

A adolescência é caracterizada pelo rápido crescimento e desenvolvimento, fase em que o corpo assume lugar de destaque pelas transformações na imagem. O confrontamento com essas mudanças pode levar ao desenvolvimento de insatisfações, resultando em desordens no comportamento alimentar. Buscou-se identificar fatores antropométricos relacionados a possíveis insatisfações corporais em estudantes no Rio de Janeiro. Foram analisadas as informações do banco de dados de um estudo transversal, realizado em 2013, com 111 estudantes dos sexos feminino e masculino, entre 10 e 19 anos, de duas escolas de Ensino Médio: peso, estatura e Índice de Massa Corporal (IMC), sexo, idade, escores do Body Shape Questionnaire (BSQ-34) e do Eating Attitudes Test (EAT-26). Empregou-se o teste Anova, a fim de analisar diferenças entre as médias de pontuação do BSQ, além do coeficiente de Pearson para comparar os escores de BSQ e EAT, entre si e com as variáveis antropométricas. A média do IMC foi semelhante em ambos os sexos. As meninas obtiveram maior grau de insatisfação com a imagem, assim como também apresentaram maior valor de escore no teste de atitudes alimentares inadequadas. Embora ambos os sexos tenham apresentado correlação entre o IMC e insatisfação com a imagem (p < 0,01), apenas nos meninos foi observada relação entre a variável estatura e a insatisfação (p < 0,01). A elevação do IMC, em ambos os sexos, e a ocorrência de baixa estatura, no sexo masculino, destacaram-se como fatores cruciais para a elevação da insatisfação. Tais fatores devem ser investigados como influenciadores da insatisfação e, possivelmente, do desenvolvimento de transtornos alimentares.

Palavras-chave: Comportamento do adolescente. Antropometria. Fatores de risco. Imagem corporal.

ANTHROPOMETRIC FACTORS RELATED TO DISSATISFACTION
WITH BODY IMAGE IN ADOLESCENTS

Abstract

Adolescence is a phase characterized by rapid growth and development where the body takes a prominent place in the various transformations of body image. Confronting changes in one’s own body image can lead to the development of dissatisfactions, resulting in feeding behavior disorders. We identified anthropometric factors related to possible body dissatisfaction in high school students in Rio de Janeiro. Information from the database of a cross-sectional study conducted in 2013 with 111 students aged 10–19 years from two schools was analyzed: weight, height and Body Mass Index (BMI), gender, age, Body Shape Questionnaire (BSQ-34) and Eating Attitudes Test (EAT-26) scores. ANOVA was used to test for differences between BSQ score means, and the Pearson’s coefficient was used to compare BSQ-34 and EAT-26 scores between themselves and with anthropometric variables. Mean BMI was similar in both sexes. Girls had a higher degree of dissatisfaction with image and presented a higher score value in the test of inappropriate eating behavior. Although both sexes had a correlation between BMI and image dissatisfaction (p < 0.01), only boys showed a relationship between height and dissatisfaction (p < 0.01). The increase in BMI in both sexes and the occurrence of short stature in males stood out as crucial factors for increasing dissatisfaction. Such factors should be thoroughly investigated as influencing dissatisfaction with body image and possibly the development of eating disorders.

Keywords: Adolescent behavior. Anthropometry. Risk factors. Body image.

FACTORES ANTROPOMÉTRICOS RELACIONADOS CON LA INSATISFACCIÓN CON LA IMAGEN CORPORAL EN ADOLESCENTES

Resumen

La adolescencia se caracterizada por un rápido crecimiento y desarrollo, en que el cuerpo ocupa un lugar destacado por las diversas transformaciones en la imagen. La confrontación con estos cambios puede llevar al adolescente al desarrollo de insatisfacciones, lo que resulta en desordenes en el comportamiento alimentario. Intentamos identificar los factores antropométricos relacionados con la posible insatisfacción corporal entre los estudiantes de Rio de Janeiro. Se analizaron las informaciones de la base de datos de un estudio transversal realizado en 2013 con 111 estudiantes mujeres y hombres de 10 a 19 años de dos escuelas secundarias: peso, talla e índice de masa corporal (IMC), sexo, edad, cuestionario de forma corporal (BSQ-34) y puntajes del test de actitudes alimentarias (EAT-26). La prueba ANOVA se usó para analizar las diferencias entre las medias de la puntuación BSQ, así como el coeficiente de Pearson para comparar las puntuaciones BSQ-34 y EAT-26 entre sí y con las variables antropométricas. La media del IMC fue similar en ambos sexos. Se observó que las niñas obtuvieron mayor grado de insatisfacción con la imagen, así como presentaron mayor valor de puntuación en la prueba de actitudes alimentarias inadecuadas. Aunque ambos sexos presentaron correlación entre el IMC e insatisfacción con la imagen (p < 0,01), sólo en los varones se observó relación entre la variable estatura y la insatisfacción (p < 0,01). Se concluyó que el aumento en el índice de masa corporal en ambos sexos y la aparición de estatura baja en los varones se destacaron como factores cruciales para la elevación de la insatisfacción. Dichos factores deben investigarse a fondo, ya que influyen en la insatisfacción con la imagen corporal y posiblemente en el desarrollo de trastornos de la alimentación.

Palabras clave: Comportamiento del adolescente. Antropometría. Factores de riesgo. Imagen corporal.

INTRODUÇÃO

A adolescência uma fase entre 10 e 19 anos, caracterizada pelo rápido crescimento e desenvolvimento físico, cognitivo, social, emocional e sexual que influencia todo ciclo da vida que ainda virá e, por isso, deve ter sua importância reconhecida em políticas púbicas de promoção e proteção da vida1.

Durante esse período, o corpo assume lugar de destaque pelas diversas transformações na imagem que podem ocasionar angústia e inquietação. A maneira como o adolescente percebe a autoimagem corporal interfere na sua vida social e saúde mental, todavia o bem-estar adolescente costuma ser frequentemente ignorado1,2.

Insatisfações em relação à autoimagem corporal podem promover desordens no comportamento alimentar adolescente, interferindo no modo como se alimenta e na escolha de padrões alimentares. O comportamento alimentar sofre influência multifatorial, incluindo questões sociais, demográficas e culturais, além do estado nutricional e da percepção individual quanto aos alimentos2-4.

Tais preocupações têm sido objeto de estudo de pesquisadores que correntemente utilizam instrumentos de avaliação para mensurar os graus de insatisfação do adolescente com sua imagem corporal e também identificar o desenvolvimento de comportamentos alimentares considerados de risco para transtornos alimentares3-6.

Instrumentos como o Body Shape Questionnaire (BSQ-34) e o Eating Attitudes Test (EAT-26), traduzidos e validados para aplicação em adolescentes, auxiliam nessa avaliação e identificação da insatisfação com a imagem corporal e de comportamentos alimentares inadequados, respectivamente7-11.

Nesse contexto, entendendo que insatisfações com a imagem corporal ocasionam prejuízos físicos e emocionais na adolescência, torna-se crucial compreender especificidades desse período da vida para rastrear descontentamentos que podem resultar em distorções de autoimagem e comportamentos alimentares de risco. À vista disso, este estudo buscou identificar fatores antropométricos relacionados a possíveis insatisfações corporais em estudantes do ensino médio no Rio de Janeiro.

MATERIAL E MÉTODOS

Foram analisadas informações do banco de dados do projeto de pesquisa “Relação entre estado nutricional e insatisfação com a imagem corporal no desenvolvimento de transtornos alimentares em adolescentes de escola pública e privada, Rio de Janeiro”, inserido no projeto maior “Avaliação nutricional e de hábitos de vida de estudantes da rede pública de ensino do município do Rio de Janeiro12. O referido estudo, do tipo transversal, foi realizado em 2013 a partir da avaliação de 111 estudantes, dos sexos feminino e masculino, de duas escolas de ensino médio (uma pública e uma particular), no município do Rio de Janeiro. Considerou-se como critério de inclusão ter entre 12 e 19 anos; e como critérios de exclusão, a ausência, no ato da coleta dos dados, do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido assinado pelo responsável, e a recusa do adolescente em assinar o Termo de Assentimento.

A amostra foi considerada sem distinção entre escola pública e privada. As variáveis utilizadas neste estudo incluem dados antropométricos (peso, estatura e IMC), sexo, idade, escores do BSQ-34 e escores do EAT-26. O BSQ-34 é um questionário autoaplicável, do tipo escala de Likert, composto por 34 perguntas com seis opções de resposta que pontuam de 1 a 6. A maior pontuação é direcionada a respostas que mostram uma preocupação demasiada com a imagem corporal. O EAT-26 também é um questionário autoaplicável, do tipo escala de Likert, com seis opções de resposta (nunca, quase nunca, poucas vezes, às vezes, muitas vezes e sempre), que pontuam de 0 a 3. Somatórios acima de 26 estão relacionados a atitudes alimentares inadequadas que levam ao risco de desenvolver transtornos alimentares.

As análises estatísticas foram realizadas utilizando o programa IBM® Statistical Package for Social Sciences (SPSS), na versão 22. Foi empregado o teste Anova, considerando um nível de significância de p < 0,05, a fim de testar as diferenças entre as médias de pontuação do BSQ-34, segundo variáveis independentes. Também foi empregado o coeficiente de Pearson para comparar os escores de BSQ-34 e EAT-26 entre si e com as variáveis antropométricas.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, conforme parecer nº 262.674.

RESULTADOS

Os adolescentes apresentaram médias de idade estatisticamente iguais entre os sexos, 54,1% eram do sexo feminino, 44,1% tinha entre 16 e 17 anos, 19,8% apresentavam excesso de peso (11,7% sobrepeso e 8,1% obesidade) e 1,8% baixo peso. Os indicadores de avaliação do estado nutricional existentes apontaram medidas antropométricas (peso e estatura) superiores no sexo masculino, apesar do IMC não ter diferido significativamente entre os grupos (tabelas 1 e 2).

Tabela 1 Caracterização da população, segundo o sexo. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro – 2014

Variáveis

Feminino

(n = 60)

Masculino

(n = 51)

média ± DP

med

mín-máx

média ± DP

med

mín-máx

Idade (anos)

15,8 ± 1,2

15,5

14-18

16,1 ± 1,34

16

14-18

Peso (kg)

53,9 ± 10

52,7

38,6-82,7

66,1 ± 14,7*

63,9

46,6-116

Estatura (m)

1,6 ± 0,05

1,6

1,47-1,74

1,73 ± 0,07*

1,73

1,56-1,89

IMC (kg/m²)

20,9 ± 3

20,4

16,2-29,4

21,9 ± 4,4

20,8

15,8-37,2

EAT

10 ± 8,7

6,5

1-43

7,5 ± 5,7

6

0-30

BSQ

74,7 ± 31

66

34-170

59,8 ± 19,3**

55

34-113

Fonte: Projeto de pesquisa “Relação entre estado nutricional e insatisfação com a imagem corporal no desenvolvimento de transtornos alimentares em adolescentes de escola pública e privada, Rio de Janeiro”.

*p < 0,001

**p < 0,01

med = mediana

mín-máx = valores mínimo e máximo

Tabela 2 Caracterização da população, segundo variáveis categóricas. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro – 2014

Variáveis

Categorias

n

%

Sexo

Feminino

60

54,1

Masculino

51

45,9

Idade

< 16

48

43,2

16-17

49

44,1

≥ 18

14

12,6

IMC

Baixo peso

2

1,8

Eutrofia

87

78,4

Sobrepeso

13

11,7

Obesidade

9

8,1

EAT-26

Sem risco (0 a 9)

73

65,8

Baixo risco (10 a 20)

30

27

Alto risco (> 20)

8

7,2

BSQ-34

Normalidade (0-80)

83

74,8

Insatisfação leve (81-110)

19

17,1

Insatisfação moderada (111-140)

6

5,4

Insatisfação grave (> 140)

3

2,7

Fonte: Projeto de pesquisa “Relação entre estado nutricional e insatisfação com a imagem corporal no desenvolvimento de transtornos alimentares em adolescentes de escola pública e privada, Rio de Janeiro”.

Na Tabela 3 é possível observar importante correlação positiva entre os escores do EAT-26 e do BSQ-34, visualizada na Figura 1. As correlações entre os escores EAT-26/BSQ-34 e os índices antropométricos variaram conforme o sexo. A estatura foi inversamente correlacionada à insatisfação corporal entre os meninos (p < 0,05), não sendo observada qualquer relação entre as meninas. Já o IMC foi positivo e fortemente correlacionado à insatisfação corporal em ambos os sexos.

Tabela 3 – Coeficientes de correlação de Pearson (r)§ comparando os escores de EAT-26 e BSQ-34, entre si e com variáveis antropométricas. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro – 2014

Variáveis

Escores EAT e BSQ

EAT

p-valor

BSQ

p-valor

Feminino

Estatura (m)

-0,08

NS

0,17

NS

IMC (kg/m2)

0,13

NS

0,43

0,001

BSQ (cm)

0,69

< 0,001

-

-

Masculino

Estatura (m)

-0,14

NS

- 0,29

< 0,05

IMC (kg/m2)

-0,04

NS

0,40

< 0,01

BSQ (cm)

0,51

< 0,001

-

-

Fonte: Projeto de pesquisa “Relação entre estado nutricional e insatisfação com a imagem corporal no desenvolvimento de transtornos alimentares em adolescentes de escola pública e privada, Rio de Janeiro”.

§ significa ajustado para idade

Figura 1 Gráficos de dispersão entre os escores BSQ-34 e EAT-26, no sexo feminino e masculino. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro – 2014

Fonte: Projeto de pesquisa “Relação entre estado nutricional e insatisfação com a imagem corporal no desenvolvimento de transtornos alimentares em adolescentes de escola pública e privada, Rio de Janeiro”.

§ significa ajustado para idade

Os instrumentos de avaliação BSQ-34 e EAT-26 apontaram valores superiores no sexo feminino, mas de forma significativa apenas em relação ao BSQ-34 (Tabela 1).
O resultado do questionário EAT-26 indicou que 34,2% dos alunos obtiveram EAT positivo (≥ 10 pontos), sendo que 7,2% apresentaram comportamentos indicativos de alto risco para o desencadeamento de transtornos alimentares.

Observou-se que 25% dos estudantes apresentaram algum grau de insatisfação em relação à imagem corporal. Dentre estes, 5,4% insatisfação moderada e 2,7% um grave nível de insatisfação (Tabela 2).

Os maiores escores no questionário BSQ-34 foram provenientes de adolescentes com maior IMC (em ambos os sexos), meninos com idade menor ou igual a 15 anos e com menor estatura (Tabela 4).

Tabela 4 Variação dos escores de BSQ-34, segundo variáveis independentes. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro – 2014

Variáveis

Categorias

Sexo feminino

Sexo masculino

BSQ

BSQ

Média ± DP

p-valor

Média ± DP

p-valor

Idade

≤ 15

76,3 ± 36,7

NS

72,3 ± 22,7

< 0,01

16 a 17

75,5 ± 25,6

53,6 ± 13,9

18

64,7 ± 20,1

50,5 ± 8,8

Altura

1º quartil

69,6 ± 24,8

0,10

75,4 ± 21,9

< 0,01

2º quartil

64,5 ± 32,5

56,2 ± 20,3

3º quartil

79,4 ± 29,9

54,5 ± 15,2

4º quartil

84,0 ± 34,4

53,9 ± 10,1

IMC

1º quartil

60,6 ± 23,1

< 0,01

47,69 ± 9,6

< 0,01

2º quartil

72,0 ± 23,5

57,7 ± 20,4

3º quartil

71,8 ± 28,5

62,5 ± 14,7

4º quartil

94,1 ± 39,0

71,5 ± 22,7

Fonte: Projeto de pesquisa “Relação entre estado nutricional e insatisfação com a imagem corporal no desenvolvimento de transtornos alimentares em adolescentes de escola pública e privada, Rio de Janeiro”

Nota: § significa ajustado para idade.

DISCUSSÃO

Este trabalho buscou estudar possíveis fatores que estejam dentre as causas que permeiam a insatisfação com a forma do corpo, fato este muito comum na adolescência, fase em que o organismo está sujeito a transformações de naturezas diversas.

Existem estudos que mostram relação entre a insatisfação com a imagem corporal, atitudes alimentares inadequadas e o risco de desenvolvimento de transtornos alimentares em estudantes brasileiros13-15. Neste estudo identificou-se uma prevalência de insatisfação corporal em torno de 29%, em ambos os sexos, valor este aproximado a outro estudo, cuja frequência foi de 25% em jovens com idade entre 12 e 19 anos16. Felicidade, satisfação, flexibilidade comportamental, crescimento e resiliência após a adversidade, além da boa saúde, educação, socialização positiva, entre outros, são algumas das condições necessárias para a maturação bem sucedida na adolescência. O incentivo dessas condições é essencial para que os jovens se transformem em adultos bem-sucedidos4.

Houve correlação positiva entre os escores de EAT-26 e BSQ-34, em ambos os sexos. Valores de r acima de 0,3 são clínica e estatisticamente consideráveis, do ponto de vista das primeiras análises de associação, e apontam o que deve merecer um maior investimento na análise dos dados, neste caso, entre os escores de comportamento alimentar e insatisfação corporal, e destes com os índices antropométricos. Dessa forma, foi possível identificar a existência de uma relação diretamente proporcional entre a insatisfação com a imagem corporal e a prática de atitudes que podem levar o adolescente a um maior risco de desenvolvimento de transtornos alimentares.

Os resultados obtidos desde a correlação dos escores até a aplicação do teste Anova entre a antropometria e os resultados do EAT-26 e BSQ-34, foram importantes para a compreensão dos fatores relacionados à insatisfação com a imagem corporal. Uma questão interessante foi a correlação positiva encontrada entre o IMC e os escores, em ambos os sexos, fato também encontrado em outros estudos17,18.

Em relação à composição corporal, onde o parâmetro utilizado foi o IMC, observamos que a maior parte dos estudantes (78,4%) se enquadrou na categoria eutrófica, o que se assemelha a outros estudos nacionais14,17. Por outro lado, 19% deles apresentava excesso de peso e 8% obesidade. Sabe-se que a obesidade é considerada um problema de saúde pública de cunho mundial, e está intimamente ligada a hábitos alimentares inadequados e a fatores distais como segurança alimentar, acesso a serviços de saúde, entre outros19,20.

O grau de insatisfação corporal costuma ser alto na população obesa, sendo a inadequação do estado nutricional e a adiposidade corporal fatores determinantes para o aumento da probabilidade nesse descontentamento, assim como para a distorção da autoimagem e para o desenvolvimento de distúrbios da alimentação15,21. Dessa forma, é prudente reforçar a importância do incentivo a práticas alimentares saudáveis e a mudanças no estilo de vida, para a prevenção e diminuição nos índices de obesidade entre adolescentes22.

Os escores de BSQ-34 foram maiores entre as meninas, constatando um maior grau de insatisfação nesse grupo, sendo a mesma informação também evidenciada por outros pesquisadores15,23,24. Meninas tendem a ter uma visão mais crítica em relação ao seu corpo principalmente pelo desejo de aparentar uma silhueta mais magra, o que pode colocá-las em maior risco para o desenvolvimento de transtornos alimentares25.

Apesar da insatisfação ser maior no sexo feminino, ela também ocorreu no sexo masculino, porém de forma diferente. No sexo masculino a preocupação costuma estar mais voltada para o ganho de massa magra, principalmente nas regiões dos ombros, peitorais e braços e está associada a fatores como baixa autoestima, comportamentos de risco para transtornos alimentares e ao grau de comprometimento psicológico em relação ao exercício físico3,26.

Os padrões de beleza contemporâneos veiculados pela mídia influenciam a busca pelo ideal de forma física27,28. Em ambos os sexos, a procura incessante pela aparência perfeita acaba gerando insatisfações com o corpo que também podem incluir descontentamentos em relação a cor da pele, atividade física, estado emocional e questões sociodemográficas5,22.

No que se refere a estatura, identificou-se que esta variável foi interveniente na insatisfação com a imagem nos meninos, tendo-se verificado que meninos com menor estatura apresentaram maior propensão a ter insatisfação com a imagem corporal, em relação àqueles com estatura mais elevada.

São poucos os estudos publicados que investigaram a influência de medidas antropométricas no desencadear de transtornos alimentares em adolescentes do sexo masculino26,29. Os estudos geralmente coletam dados de estatura apenas para calcular o IMC, não considerando essa variável como um possível fator na insatisfação com a imagem corporal14,27. Dessa forma fazem-se necessários mais estudos que investiguem a influência da estatura baixa e a insatisfação com a imagem corporal nos meninos, posto que apesar da prevalência de insatisfação ser maior nas meninas, não se pode desconsiderar que os meninos também se preocupam com a imagem e também são influenciados e pressionados pela mídia e sociedade para alcançar o corpo ideal.

Ressalta-se que os índices de insatisfação foram maiores entre meninos com idade menor ou igual a 15 anos, o que parece estar de acordo com estudos que apontam a ocorrência de transtornos de conduta da infância, entre adolescentes do sexo masculino de 10 a 14 anos, como a terceira entre as cinco principais causas de anos de vida ajustada por incapacidade (Dalys) na adolescência. O Dalys é uma medida que combina os anos estimados de vida perdidos por morte prematura e os anos estimados de vida vividos com saúde abaixo do ideal, ou seja, ele combina as cargas de mortalidade e morbidade. No sexo feminino os transtornos de ansiedade também ocupam o terceiro lugar nessa medida. Isso demonstra o quanto adolescentes, principalmente na primeira etapa da adolescência, são susceptíveis a questões emocionais1.

Os resultados deste estudo permitem reflexões sobre os fatores relacionados à insatisfação com a imagem corporal em adolescentes de ambos os sexos, fato estritamente relacionado com o desenvolvimento de transtornos alimentares. No entanto, sabe-se que a deflagração de insatisfações com a imagem corporal tem contexto multifatorial. Por isso, responsáveis e escola devem contribuir para o desenvolvimento de uma rede de suporte que estimule o adolescente para a formação de opiniões críticas em relação às informações divulgadas pela mídia, assim como para as suas escolhas de vida, sejam elas alimentares ou de prática de atividade física. Por conseguinte, o conhecimento prévio de fatores antropométricos, que causam descontentamento entre adolescentes, pode possibilitar o estabelecimento ou aprimoramento de estratégias educativas e preventivas voltadas para esse público, além do estímulo para que novos estudos sejam propostos.

Embora os resultados sejam de grande interesse, algumas limitações podem ser atribuídas ao estudo, como o uso de dados secundários e o estabelecimento de escores e não de classificações, pelos criadores dos questionários BSQ-34 e EAT-26. Para superar tais limitações foram empregadas diferentes formas de análises estatísticas, a fim de obter resultados consistentes.

CONCLUSÃO

A elevação do índice de massa corporal, em ambos os sexos, e a ocorrência de baixa estatura, no sexo masculino, destacaram-se como fatores cruciais para a elevação da insatisfação do adolescente com seu corpo. Tais fatores devem ser investigados como possíveis influenciadores da insatisfação em relação à imagem corporal e, possivelmente, do desenvolvimento de transtornos alimentares.

COLABORADORES

1. Concepção do projeto, análise e interpretação dos dados: Ana Paula Fernandes Gomes, Nayara Sanson de Souza, Shenara Lamberg Vidal e Marcelo Castanheira.

2. Redação do artigo e revisão crítica relevante do conteúdo intelectual: Ana Paula Fernandes Gomes e Nayara Sanson de Souza.

3. Revisão e/ou aprovação final da versão a ser publicada: Ana Paula Fernandes Gomes e Marcelo Castanheira.

4. Ser responsável por todos os aspectos do trabalho na garantia da exatidão e integridade de qualquer parte da obra: Ana Paula Fernandes Gomes e Marcelo Castanheira.

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Recebido: 18.4.2018. Aprovado: 5.12.2019.


a Doutoranda em Saúde Coletiva. Docente do Departamento de Nutrição Fundamental da Escola de Nutrição da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: apnandes@yahoo.com

b Especialista em Nutrição com ênfase em obesidade e emagrecimento. Ex-voluntária do Departamento de Nutrição Fundamental da Escola de Nutrição da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: nana_sanson@hotmail.com

c Graduada em Nutrição. Ex-bolsista do Departamento de Nutrição Fundamental da Escola de Nutrição da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: shenara.lv@hotmail.com

d Doutor em Epidemiologia. Docente do Departamento de Nutrição Fundamental da Escola de Nutrição da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: celocast@yahoo.com.br

Endereço para correspondência: Universidade Federal do Rio de Janeiro. Av. Pasteur, n. 296, Urca. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. CEP: 22290-240. E-mail: apnandes@yahoo.com