ARTIGO ORIGINAL DE TEMA LIVRE

QUALIDADE DE VIDA DE FAMILIARES DE PESSOAS HOSPITALIZADAS NA UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA

Aminne Oliveira da Silva Bastosa

Katia Santana Freitasb

Camila Oliveira Valentec

Elaine Guedes Fontourab

Marluce Alves Nunes Oliveirab

Resumo

As mudanças originárias do impacto provocado pela hospitalização podem afetar a qualidade de vida dos elementos do sistema familiar. Esse processo é marcado pela ruptura no cotidiano da família. O estudo objetivou avaliar a qualidade de vida de familiares de pessoas hospitalizadas na unidade de terapia intensiva em um hospital público de um município do interior da Bahia. Tratou-se de um estudo transversal, com amostra de 87 familiares, utilizando a ficha de caracterização World Health Organization Quality of Life Instrument para obter os dados socioeconômicos e a avaliação do nível de qualidade de vida. Os resultados evidenciaram nível mais elevado de qualidade de vida nos domínios Relações sociais e Físico; médio no domínio Psicológico; e mais baixo no domínio Meio ambiente. A análise da consistência interna foi dada pelo coeficiente alfa de Cronbach, no qual os domínios Meio ambiente, Físico e Psicológico, com valores maiores; e o domínio Relações sociais, com o menor valor. Houveram correlações positivas com as variáveis e em todas com o domínio Físico e uma correlação com o domínio Psicológico. As variáveis foram: sexo do familiar, para o domínio Físico e para o domínio Psicológico; Possui alguma dor física e Realiza algum tratamento médico. Ao avaliar os domínios Relações sociais e Físico, por meio de sua média, verificou-se que a mesma corresponde a um maior nível de qualidade de vida, enquanto que a análise do domínio meio ambiente permitiu identificar que há um baixo nível de qualidade de vida. Concluiu-se que algumas dimensões da qualidade de vida do familiar são afetadas com o processo de internação de um parente na Unidade de Terapia Intensiva, o que requer um olhar mais sensível e práticas de cuidado voltadas a esse grupo social.

Palavras-chave: Qualidade de vida. Família. Unidade de Terapia Intensiva.

QUALITY OF LIFE OF FAMILY MEMBERS OF PEOPLE HOSPITALIZED TO THE INTENSIVE CARE UNIT

Abstract

Changes caused by hospitalization can affect the quality of life of the people in a family system, a process that potentially disrupts the daily life of a family. The present study aimed at assessing the family members’ quality of life from patients hospitalized in an intensive care unit at a public hospital in a municipality in Bahia. A cross-sectional study with a sample of 87 family members was carried out using the World Health Organization Quality of Life Instrument to collect socioeconomic data and quality of life assessment scores. The results showed a higher level of quality of life in the Social Relations and Physical domains; an average level in the Psychological domain; and a lower level in the Environmental domain. The Cronbach’s alpha coefficient was used as internal consistency analysis. The Environmental, Physical and Psychological domains obtained higher values and the Social Relations domain scored with the lowest value. There were positive correlations with all variables and the Physical domain and one positive correlation with the Psychological domain. Gender, pain and ongoing medical treatment were the variables of Physical and Psychological domains. An evaluation of the mean regarding the Social Relations and Physical domains showed that it corresponds to a higher level of quality of life, whereas the analysis of the Environmental domain pointed that there is a lower level of quality of life. It is concluded that some areas of the family’s quality of life are affected by the process of a relative’s hospitalization in the Intensive Care Unit, which requires a thorough observation and care practices that focus on this social group.

Keywords: Quality of life. Family. Intensive Care Unit.

CALIDAD DE VIDA DE FAMILIARES DE PERSONAS HOSPITALIZADAS EN LA UNIDAD DE TERAPIA INTENSIVA

Resumen

Los cambios causados por la hospitalización pueden afectar la calidad de vida de
las personas en un sistema familiar, un proceso que potencialmente interrumpe la vida cotidiana de una familia. El presente estudio tuvo como objetivo evaluar la calidad de vida de los familiares de
los pacientes hospitalizados en una unidad de cuidados intensivos en un hospital público
de un municipio de Bahía. Se realizó un estudio transversal con una muestra de 87 miembros de
la familia utilizando el Instrumento de Calidad de Vida de la Organización Mundial de la Salud para recopilar datos socioeconómicos y puntuaciones de evaluación de la calidad de vida. Los resultados mostraron un mayor nivel de calidad de vida en las relaciones sociales y los dominios físicos; un nivel promedio en el dominio Psicológico; y un nivel más bajo en el dominio Ambiental. El coeficiente alfa de Cronbach se utilizó como análisis de consistencia interna. Los dominios Ambiental, Físico y Psicológico obtuvieron valores más altos y el dominio de Relaciones Sociales anotó con el valor más bajo. Hubo correlaciones positivas con todas las variables y el dominio físico y una correlación positiva con el dominio psicológico. Género, dolor y tratamiento médico continuo fueron las variables de los dominios Físico y Psicológico. Una evaluación de la media con respecto a los dominios de Relaciones Sociales y Física mostró que corresponde a un mayor nivel de calidad de vida, mientras que el análisis del dominio Ambiental señaló que hay un menor nivel de calidad de vida. Se concluye que algunas áreas de la calidad de vida de la familia se ven afectadas por el proceso de hospitalización de un familiar en la Unidad de Cuidados Intensivos, que requiere una observación exhaustiva y prácticas de atención que se centren en este grupo social.

Palabras clave: Calidad de vida. Familia. Unidad de Cuidados Intensivos.

INTRODUÇÃO

A hospitalização é um evento que pode ocorrer em qualquer etapa da vida, decorrente de um adoecimento proveniente das mais diversas razões. A internação leva o indivíduo e seus familiares a adaptar-se e a estabelecer uma nova rotina em função das mudanças impostas pela atual situação. Essa condição leva os familiares, que possuem um ente hospitalizado, a experimentarem uma situação de fragilidade biológica, psíquica e social, já que a doença e a internação constituem-se em eventos que produzem desconfortos, como sofrimento, alteração de papéis e hábitos da vida cotidiana, bem como a incerteza de recuperação de seu parente1-2.

Esse processo tem sido marcado pela ruptura no cotidiano da família, justificado pelas relações de reciprocidade, nas quais cada membro exerce influência sobre os outros e, qualquer mudança que ocorra com um componente, afetará todos os demais3-4.

As mudanças originárias desse impacto provocado pela hospitalização podem afetar a qualidade de vida (QV) dos elementos do sistema familiar. Os desconfortos podem causar uma desestruturação, romper o equilíbrio familiar, bem como afetar as dimensões da vida dos entes durante a internação de um parente em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Essas alterações ameaçam a integridade biopsicossocial, causando um alto grau de estresse e ansiedade nos familiares, o que interfere na capacidade de relação com o mundo, organização, enfrentamento da situação e no bem-estar2,5-6.

A QV é definida como a percepção individual de sua posição na vida, no contexto da cultura e dos sistemas de valores a que se está submetido, bem como em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações. Esse conceito relaciona o meio ambiente com aspectos físicos, psicológicos, nível de independência, relações sociais e crenças pessoais, o que caracteriza a natureza subjetiva da avaliação5.

A existência de estudos que analisaram a QV em diversos contextos e com diferentes grupos7-20 foi evidenciada nas bases de dados Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE) e Scientific Electronic Library Online (SciELO), entretanto, encontrou-se, entre estudos nacionais e internacionais, apenas uma publicação21 que tratava da QV de familiar-
-acompanhante com ente em situação de hospitalização na UTI.

A avaliação da QV e intervenção com famílias são fundamentais para o progresso da prática e pesquisa dessa importante área de investigação, pois esse conhecimento pode permitir a elaboração de estratégias pela equipe multiprofissional, a fim de fornecer-lhes o suporte para minimizar o risco que o familiar tem de tornar-se um futuro usuário dos serviços de saúde.

Salienta-se, ainda, que as práticas de cuidado que têm como enfoque a família possibilitam a redução do impacto da mudança do cotidiano familiar em função da internação de um membro na UTI. O apoio e a promoção do conforto à família colaboram para a melhoria do bem-estar, recuperação da força, enfrentamento, apoio ao parente enfermo e consequente melhoria na QV22.

O conhecimento produzido por esta pesquisa pretende contribuir para gestores, profissionais e acadêmicos da área da saúde, possibilitando refletir sobre o tema e planejar possibilidades de atuação frente ao grupo pesquisado. Além disso, fomentar a aplicação rotineira de instrumentos de avaliação das famílias que permitem a observação da efetividade das práticas de cuidado interdisciplinares no contexto hospitalar.

Diante do exposto, o estudo objetiva avaliar o nível de qualidade de vida de familiares de pessoas hospitalizadas em unidade de terapia intensiva de um hospital público no município do interior da Bahia.

MATERIAL E MÉTODOS

Trata-se de um estudo de corte transversal feito em uma amostra composta por 87 familiares de pessoas internadas nas unidades de terapia intensiva (UTIs) adulto de uma instituição hospitalar pública de grande porte, em um município do interior da Bahia. Elas foram selecionadas por atenderem aos critérios de inclusão e aceitarem participar da pesquisa, realizada entre março a maio de 2015.

Os critérios de inclusão foram os seguintes: idade igual ou superior a 18 anos; possuir um familiar internado nas UTIs adulto; ser a pessoa mais próxima do familiar internado, convivendo com ele e mantendo contínuo relacionamento; ter o familiar em um período de internação superior a 72 horas na UTI; e ter visitado o familiar pelo menos uma vez no curso da internação.

A abordagem aos familiares ocorreu na sala de espera das UTIs adulto. Após a consulta do mapa de pacientes, identificava-se aqueles com mais de 72 horas de internação e dirigia-se, individualmente, a cada familiar que aguardava na sala de espera para visitar o parente internado na UTI. Foram explicados os objetivos, a metodologia e os aspectos éticos relacionados à participação na pesquisa. Assim, aqueles que concordavam em participar do estudo, faziam a leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e assinavam o documento. Logo após essa primeira abordagem, eram submetidos à aplicação dos questionários. A técnica de coleta de dados foi a entrevista, com a aplicação do Questionário de Caracterização dos Familiares de Pessoas Internadas na Unidade de Terapia Intensiva e do instrumento de avaliação da qualidade de vida, o World Health Organization Quality of Life (WHOQOL), em sala privativa da unidade.

Questionário de Caracterização dos Familiares de Pessoas Internadas na Unidade de Terapia Intensiva aborda as seguintes variáveis: biológicas (idade, sexo), econômicas (renda), sociais (estado civil, escolaridade, religião, situação de trabalho, cidade onde reside) e relação familiar com o parente internado (grau de parentesco, se mora com o familiar internado, experiência anterior com parentes internados em UTI, tempo de internação do parente na UTI, idade da pessoa internada e motivo da internação). Já para avaliação da QV, usou-se o WHOQOL-bref, instrumento traduzido e validado no Brasil, composto por 26 questões em 24 facetas, sendo 2 questões (1 e 2) correspondentes ao Índice Geral de Qualidade de Vida (IGQV) e as outras distribuídas em quatro domínios: Físico, Psicológico, Relações Sociais e Meio ambiente. Esse instrumento não possui ponto de corte, sendo o nível de QV avaliado em uma pontuação de ٠ a ١٠٠, na qual quanto mais próximo de 0, indica-se uma pior QV; e quanto mais próximo de 100, melhor a QV. A pontuação varia entre 1 a 5 pontos, demonstrando a pior e a melhor QV possível, sendo que, em 3 questões (3, 4 e 26), a interpretação é invertida
(1=5, 2=4, 3=3, 4=2, 5=1).

Os dados foram armazenados em banco de dados e analisados no programa estatístico Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 18.0 para plataforma Windows. Foi realizado o teste de Kolmogorov-Smirnov para testar a normalidade da distribuição dos coeficientes dos indicadores sociodemográficos e domínios do instrumento. Para análise das variáveis categóricas, referentes à caracterização dos familiares, foi utilizada a estatística descritiva, com frequência absoluta e relativa. Para as variáveis quantitativas, referentes aos escores de QV, foram calculadas as medidas descritivas de centralidade (média, mediana e moda) e de dispersão (desvio-padrão).

A confiabilidade da consistência interna da escala foi determinada por meio do cálculo do coeficiente alfa de Cronbach, atribuindo um valor de alfa para a medida como um todo, assim como para suas dimensões de, no mínimo 0,70. Os parâmetros como análise da consistência interna, quando α < 0,30, foi considerado muito baixo; 0,30 < α < 0,60 baixo; 0,60 < α < 0,75 moderada; 0,75 < α < 0,90 alta; α > 0,90, alta23-24.

Para verificar a relação entre as variáveis estudadas e os domínios do
WHOQOL-bref, foram aplicados os seguintes testes: coeficiente de Correlação de Pearson; Teste t de student e Análise de variância (ANOVA). O nível de significância para este estudo foi fixado em 0,05, o que ocasiona a rejeição da hipótese nula se o valor for menor que 0,05.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Estadual de Feira de Santana, identificado pelo n. 998.362, em concordância com as recomendações da Resolução n. 466, de 12 de dezembro de 2012, do Conselho Nacional de Saúde.

RESULTADOS

Dos familiares entrevistados, 70,1% eram do sexo feminino, com idade média de 40 anos (±12,4). Predominaram participantes solteiros (34,5%) ou casados (28,7); 60,9% eram católicos; a maioria com ensino médio completo (41,4%) ou ensino fundamental incompleto (20,7%); aproximadamente 36,8% estavam empregados; a renda familiar média foi de R$ 1.919,00 reais mensais (± R$ 3.805,61). Do total de entrevistados, 42 (48,3%) residiam em outras cidades; 31,0% eram filhos dos parentes internados e 31,0% irmãos; 69,0% não moravam na mesma casa com o parente internado; e, quando questionados sobre experiências anteriores com pessoas na UTI, 63,2% indicaram que nunca tinham entrado em uma nessa parte do hospital.

Quanto à caracterização dos pacientes, encontravam-se em duas UTIs, sendo que 50,6% estavam internados na UTI II e 49,4% na UTI I, e permaneceram internados em média 12 dias (±16,8). Quanto ao sexo, 61,2% eram do sexo masculino e 38,8% do feminino; já a média de idade foi 44 anos (±19,1). A natureza do diagnóstico predominante foi o cirúrgico (71,3%) e o motivo da internação mais frequente foi o pós-operatório (71,4%).

Para testar a hipótese de normalidade da distribuição com o Kolmogorov-Smirnov (KS) neste estudo, obteve-se KS sem significância estatística, o que indicou semelhança entre a distribuição esperada e a observada, evidenciando um padrão de curva normal.

Os resultados da análise da consistência interna pelo coeficiente alfa de Cronbach dos quatro domínios WHOQOL-bref destacaram que ele manteve-se moderado nos domínios Físico (0,648), Psicológico (0,619) e Meio ambiente (0,649). Somente para o domínio Social, apresentou-se uma consistência interna baixa (0,468).

A análise do nível da QV geral e dos domínios que constituem o WHOQOL-bref estão apresentados na Tabela 1. A média dos escores dos domínios foi calculada em uma escala de 0 a 100, de acordo com as orientações do WHOQOL-group. Os domínios Relações sociais e o Físico apresentaram os maiores escores (66,28 e 60,59 respectivamente), enquanto que o domínio Ambiente apresentou o menor (45,83).

Tabela 1 – Escores dos domínios do WHOQOL-bref, de acordo com os familiares das pessoas internadas nas Unidades de Terapia Intensiva. Feira de Santana, Bahia, Brasil mar.-maio 2015. N = 87

Domínios

Mínimo

Máximo

Média

Desvio Padrão

Índice Geral de Qualidade de Vida

12,50

87,50

53,59

± 18,18

Relações sociais

8,33

100,0

66,28

± 20,45

Físico

25,00

92,86

60,59

± 16,09

Psicológico

16,67

91,67

56,99

± 16,59

Ambiente

3,13

81,25

45,83

± 15,16

Fonte: Elaboração própria.

A análise das relações entre a QV e as características dos familiares evidenciou que os valores que resultaram do Teste de correlação de Pearson das variáveis quantitativas Idade do parente internado, Tempo de internação e Idade do familiar, com os domínios do WHOQOL-bref, não interferiu significativamente no estudo (p > ٠,٠٥).

Com o Teste t de student, foram comparadas as médias das variáveis binárias Residir com o parente internado, Sexo do parente internado e Experiência anterior com parente na UTI e os domínios do WHOQOL-bref apresentaram p>0,05, o que significa que não houve significância estatística.

Tabela 2 – Média e valores de p das variáveis e dimensões do WHOQOL. Feira de Santana, Bahia, Brasil – mar.-maio 2015

Variáveis

Relações sociais

(p)

médias

Físico

(p)

médias

Psicológico

(p)

médias

Ambiente

(p)

médias

Sexo do familiar

(0,93)

(0,03)

(0,03)

(0,09)

Feminino

66,39

57,26

54,37

43,08

Masculino

66,03

68,41

63,14

52,28

Dor física

(0,84)

(0,001)

(0,001)

(0,068)

Sim

65,81

54,39

57,16

42,55

Não

66,67

65,62

56,86

48,50

Tratamento médico

(0,97)

(0,004)

(0,004)

(0,59)

Sim

66,38

53,69

57,61

44,61

Não

66,23

64,0

56,68

46,44

Fonte: Elaboração própria.

Nota: p< 0,05 Teste t student.

A análise das variáveis Sexo do familiar, Dor física e Tratamento médico mostraram diferenças significativas com s domínio Físico e o domínio Psicológico do WHOQOL-bref.

A análise das variáveis Estado civil, Escolaridade, Situação de trabalho e Grau de parentesco pela ANOVA, quando comparados seus grupos entre os domínios do WHOQOL-bref, não apresentaram significância estatística.

DISCUSSÃO

O presente estudo aborda a saúde e a qualidade de vida do grupo familiar que vivencia o processo de adoecimento e hospitalização de um parente em uma UTI. Este evento abrupto provoca mudanças na rotina da família, pois, ao sentirem-se ameaçados em sua integridade pelo medo da perda do ente, o desequilíbrio e o estresse no sistema familiar acarreta consequências em sua QV.

Para avaliar a fidedignidade do WHOQOL-bref, foi utilizado o coeficiente de consistência interna alfa de Cronbach, a fim de conhecer o seu desempenho para esse grupo em particular. Avaliou-se a consistência interna para os domínios individualmente, revelando uma boa consistência dos domínios Físico, Meio ambiente e Psicológico, denotando a adequada confiabilidade para essa medida. Quanto ao domínio Relações sociais, ele apresentou alfa considerado baixo. Este achado corrobora os estudos em contextos diversos25-29, nos quais o domínio Relações sociais apresentou valores de confiabilidade reduzido em relação aos demais.

A análise do nível de QV de famílias em situação de hospitalização é mensurado por meio dos domínios do WHOQOL-bref. Neste estudo, a percepção de saúde geral dos familiares foi considerada mediana, confirmando as várias interferências que existem nesse período para a desestrutura do conjunto familiar. Vale ressaltar que o instrumento da Organização Mundial de Saúde (OMS) não prevê conceitualmente que se possa utilizar o escore global de QV, mas essa verificação fornece uma visão geral ao pesquisador, ficando a análise mais aprofundada para os domínios25.

A avaliação do nível da QV dos familiares deste estudo permitiu identificar que o domínio Relações sociais obteve o maior escore, seguido pelo domínio Físico, domínio Psicológico e tendo o domínio Meio ambiente com o menor escore. Salienta-se que os escores de avaliação de cada um dos quatro domínios foram calculados considerando que o mínimo dos escores de cada domínio é 0 e o máximo é 100. O escore de cada domínio é obtido em uma escala positiva, isto é, quanto mais alto o escore, melhor a QV naquele domínio.

As mudanças no funcionamento social criam, nos membros familiares, a necessidade de recorrer a pessoas próximas para obter suporte. Assim, no estudo presente, evidenciou-se que os familiares obtiveram um nível maior de QV no domínio Relações sociais, que está relacionado a apoio, sobre manter as relações com as pessoas que os cercam e poder vivenciar suas atividades sexuais, mesmo com o processo de hospitalização de seu parente30.

O domínio Físico também obteve escore que evidenciou uma maior percepção referentes aos quesitos que ele aborda. Em um estudo sobre acolhimento à familiares de pacientes internados na UTI, foi evidenciado, por meio do Grupo de Apoio aos Familiares (GRAF), que os familiares, em decorrência do processo de hospitalização do seu parente, manifestavam cansaço resultante de noites mal dormidas, acúmulo de funções que antes eram desempenhadas pelo parente internado e prejuízo no desempenho profissional7.

No presente estudo, apesar da satisfação intermediária alegada pela maioria, muitos afirmaram que se sentiam insatisfeitos com sono, atividades da vida diária, trabalho e energia. Ainda que muitos familiares tenham alegado que não possuem dor física, que não dependem de tratamentos médicos e possuem boa mobilidade, muitos ficam à disposição para cuidar do parente em detrimento da sua própria saúde. O estado emocional e a sobrecarga vivenciada pelo processo de hospitalização podem culminar no aparecimento de doenças.

O domínio com escore intermediário foi o Psicológico, que é composto pelas facetas: sentimentos positivos, espiritualidade\religião\crenças pessoais, pensar, aprender, memória, concentração, imagem corporal, aparência e autoestima; e sentimentos negativos.

Identificou-se, em estudos, um distanciamento entre os profissionais e os familiares, refletindo diretamente na troca de informações sobre o estado de saúde da pessoa internada, pois as notícias sobre a condição do paciente não são fornecidas e não há a inserção do familiar no cuidado ao seu parente27-28. As informações dadas aos familiares pelos profissionais são generalizadas e utilizam linguagem da área de saúde ou científica, oferecendo dados que não são bem compreendidos e que intensificam a aflição dos familiares29.

Os familiares necessitam constantemente de informações sobre o seu parente internado. Além disso, precisam de comunicação clara e segura e contatos prolongados com o agente da área de saúde, buscando compreender o estado da doença do parente. Isso acaba por influenciar na redução dos níveis de ansiedade e sentimento de controle, embasando-os nas tomadas de decisões sobre o paciente30.

O domínio Ambiente teve menor média e é caracterizado pelas facetas: segurança física e proteção; ambiente físico: poluição, ruído, trânsito, clima; recursos financeiros; oportunidades de adquirir novas informações e habilidades; participação e oportunidades de recreação\lazer; ambiente no lar; cuidados de saúde e sociais; disponibilidade e qualidade; transporte5.

Os familiares, por vezes, em decorrência da hospitalização, param de trabalhar para acompanhar seus parentes no hospital, sofrendo com restrições financeiras, limitando seus gastos até com transporte e alimentação. Muitas vezes, o baixo nível socioeconômico de alguns impede a ida ao hospital, pois a maioria depende de transporte coletivo30. No presente estudo, ainda que se tenha evidenciado que a maior parte dos respondentes consideram uma QV intermediária, boa parte sinalizou que estão insatisfeitos com seu meio de transporte e consideraram ter muito pouco dinheiro para satisfazer suas necessidades.

Os familiares diminuíram as atividades de lazer, como assistir televisão, jogar, realizar caminhadas, conviver em família e inserir-se no ambiente trabalho, pois dispendiam mais tempo deslocando-se de casa para o hospital e realizando contatos telefônicos, e menos tempo com as crianças e o restante da família em casa e no trabalho2,31.

A análise das variáveis sociodemográficas e clínicas do grupo estudado com cada domínio físico e psicológico do WHOQOL-bref revelou, quanto ao sexo, que as médias dos domínios Físico, Psicológico e Meio ambiente para o sexo feminino foram menores em relação ao masculino, demonstrando que as mulheres possuíam uma menor QV, quando comparada aos homens.

A mulher, sendo mãe ou irmã ou filha, é a principal cuidadora quando um parente passa pelo processo de adoecimento e hospitalização. Essa ação do cuidar que é culturalmente empregada às mulheres, vai além do ambiente domiciliar e estende-se para o hospital, onde é traduzida por meio das visitas e cuidados contínuos. As visitas realizadas por homens são afetivamente menos intensas do que aquelas realizadas por mulheres, mesmo na presença de pai ou mãe hospitalizados32-33.

Os domínios Físico, Psicológico e Meio ambiente com o item Possuir alguma dor física apresentaram diferenças de médias entres os grupos positivo e negativo, assim como os domínios Físico e Psicológico para aqueles que foram positivos em Realizar um tratamento médico. Os respondentes que possuíam dor física e realizavam tratamento médico obtiveram uma média de QV em relação a esse domínio menor do que aqueles que não tinham dor física e não realizam tratamento médico. Assim, demonstrou-se que o processo de internação de um parente em uma UTI, juntamente com uma dor física frequente e realização de tratamentos médicos, indicam uma piora no nível de QV e consequentemente mais dificuldades no enfrentamento dessa situação.

A dor é sintoma de alerta, comum nas enfermidades e com impacto negativo na vida das pessoas que buscam alternativas para seu alívio. A alteração da função física costuma ser um sinal no que diz respeito à saúde e, de todos os sinais e sintomas de enfermidades, possivelmente o mais comum e urgente é a dor. Ela incapacita e aflige mais pessoas do que qualquer quadro patológico particular34.

Face aos desconfortos que a família vivencia durante a internação de um ente, especialmente, na terapia intensiva, e seus impactos nas diferentes dimensões da sua vida, como a física, a psicológica, a social e ambiental, o que certamente implica em redução da sua QV período da hospitalização, faz-se fundamental para profissionais de saúde e gestores hospitalares compreender a vivência da família com um ente hospitalizado como umas das mais importantes fontes de suporte para vários agravos da saúde, sejam eles físicos ou psíquicos.

CONCLUSÃO

O estudo identificou que os familiares possuem o nível de QV afetado em todas as dimensões, especialmente as mulheres e aqueles que já possuem problemas de saúde. Aponta para a distância entre o profissional e a família, o que impede a percepção das demandas apresentadas pela família, não havendo intervenções em saúde que resultem em bem-estar destes indivíduos.

Assim, a necessidade de atenção não só a saúde do paciente, mas como também de sua família, pois esta acompanha o processo de internação, cuida e participa da tomada de decisões sobre a vida do seu parente, embora, às vezes, não se permitam manifestar seus sentimentos e dificuldades, a família vivencia dores em várias esferas que os fragilizam e, por isso, enfrentam alterações biopsicossociais que afetam a sua QV.

Considera-se que a pesquisa apresenta algumas limitações por ser um estudo transversal, cuja amostra foi do tipo intencional ou de conveniência. Foi realizado em uma instituição hospitalar pública do interior da Bahia, nesse sentido, os resultados obtidos podem não ser extensivos a todos os familiares que possuem um ente na UTI. A inexistência de instrumentos específicos para a avaliação de famílias no contexto da hospitalização levou a adoção do instrumento genérico para esse campo de aplicação.

Acredita-se, que novos estudos devam ser realizados para avaliar desempenho do WHOQOL-bref ou adaptação do mesmo para este grupo.

COLABORADORES

1. Concepção do projeto, análise e interpretação dos dados: Aminne Oliveira da Silva Bastos e Katia Santana Freitas.

2. Redação do artigo e revisão crítica relevante do conteúdo intelectual: Aminne Oliveira da Silva Bastos, Katia Santana Freitas e Camila Oliveira Valente.

3. Revisão e/ou aprovação final da versão a ser publicada: Aminne Oliveira da Silva Bastos, Katia Santana Freitas, Elaine Guedes Fontoura e Marluce Alves Nunes de Oliveira.

4. Ser responsável por todos os aspectos do trabalho na garantia da exatidão e integridade de qualquer parte da obra: Aminne Oliveira da Silva Bastos e Katia Santana Freitas.

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Recebido: 28.2.2018. Aprovado: 2.8.2018.


a Enfermeira. Mestranda do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva pela Universidade Estadual de Feira de Santana. Feira de Santana, Bahia, Brasil.

b Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Docente adjunto do Departamento de Saúde da Universidade Estadual de Feira de Santana. Feira de Santana, Bahia, Brasil.

c Enfermeira. Mestranda do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Federal da Bahia. Salvador, Bahia, Brasil.

Endereço para correspondência: Universidade Estadual de Feira de Santana, Módulo VI, Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas e Estudos em Saúde. Avenida Transnordestina, s/n, Bairro Novo Horizonte. Feira de Santana, Bahia, Brasil. CEP: 44036-900. E-mail: ksfenfpro@hotmail.com

DOI: 10.22278/2318-2660.2018.v42.n0.a2879