DOI: 10.22278/2318-2660.2018.v42.n2.a2605

ARTIGO ORIGINAL DE TEMA LIVRE

INCONTINÊNCIA URINÁRIA ENTRE IDOSOS: UM ESTUDO EM ÁREAS POBRES DO
NORTE E NORDESTE DO BRASIL

Juraci A. Cesara

Luana P. Marmittb

Alessandra C. Dziekaniakc

Maria Aurora D. Chrestanid

Resumo

A incontinência urinária (IU) é um importante problema de saúde comum entre idosos que demanda ampla utilização de serviços de saúde e acarreta diversos transtornos ao indivíduo e à família. Objetivou-se medir a prevalência de IU e identificar fatores associados à sua ocorrência entre indivíduos com 60 anos ou mais de idade residentes em dois municípios pobres das regiões Norte e Nordeste do Brasil. Utilizando-se de abordagem quantitativa e delineamento transversal, entrevistadores treinados visitaram metade dos domicílios do município de Caracol (PI), e um terço dos domicílios de Garrafão do Norte (PA) e aplicaram questionário padrão a esta população. A medida de efeito utilizada foi razão de prevalências (RP) e a análise multivariável por regressão de Poisson com ajuste robusto da variância. Dentre os 1.023 idosos estudados, 15,4% referiram IU. Esta prevalência variou de 7,9%, entre aqueles que não referiram qualquer outro problema de saúde, até 27,5%, entre aqueles com 80 anos ou mais. A análise ajustada mostrou maior RP à ocorrência de IU entre aqueles com 80 anos ou mais de idade (2,14; 1,51-3,04), que sofreram quedas nas quatro semanas anteriores a entrevista (RP = 1,47; 1,02-2,01) e que referiram sofrer três ou mais problemas de saúde (2,60; 1,38-4,91). Não ser alfabetizado mostrou-se um fator de proteção à IU (RP = 0,52; 0,31-0,90) em relação a quatro anos ou mais de escolaridade. A ocorrência de IU mostrou-se elevada na população estudada e associada de forma independente à maior idade, relato de queda e presença de comorbidade.

Palavras-chave: Idoso. Incontinência urinária. Fatores de risco. Áreas de pobreza.

URINARY INCONTINENCE AMONG OLDER ADULTS: A STUDY IN POOR AREAS OF THE NORTH AND THE NORTHEAST BRAZIL

Abstract

Urinary incontinence (UI) is an important and common health problem between the older adults population, it requires extensive use of health services, leading to many inconveniences to both individuals and their families. This study aims to determine the prevalence of UI and to identify associated factors with its occurrence among older adults in two Brazilian municipalities. Using a cross-sectional survey, interviewers visited half of the households in the Brazilian municipality of Caracol (Piauí State) and one-third in Garrafão do Norte (Pará State), they applied a standardized questionnaire to this population. Prevalence ratio (PR) was estimated and Poisson regression with robust adjustment of variance was applied in the multivariate analysis. Out of the 1,023 older adults studied, 15.4% reported UI. This prevalence ranged between 7.9% among those who did not mention any other health problem and 27.5% among those aged 80 years old or more. Multivariate analysis presented a higher occurrence of UI among those aged 80 or older (2.14; 95% CI: 1.51-3.04), who fell in the four weeks previous to the interview (PR = 1.47; 95% CI: 1.02-2.01) and among those who reported three or more health problems (PR = 2.60; 1.38-4.91). Illiteracy was considered as a protective factor for UI (PR = 0.52; 0.31-0.90) compared to those with four or more years of education. The occurrence of UI was elevated in the studied population and the variables independently associated were older age, history of falls and comorbidity.

Keywords: Aged. Urinary incontinence. Risk factors. Poverty areas.

INCONTINENCIA URINARIA EN ANCIANOS: UN ESTUDIO EN ZONAS POBRES DEL NORTE Y NORDESTE DE BRASIL

Resumen

La incontinencia urinaria (IU) es un importante problema de salud común entre ancianos que necesitan de una gran utilización de servicios de salud, y conlleva diversos trastornos al individuo y a la familia. El estudio tuvo como objetivo determinar la prevalencia de la IU e identificar sus factores asociados en ancianos con más de 60 años y que residían en dos municipios pobres de las regiones Norte y Nordeste de Brasil. Utilizándose un abordaje cuantitativo y de carácter transversal, las entrevistadoras entrenadas visitaran mitad de los domicilios de la ciudad de Caracol (Piauí) y un tercio de los domicilios de Garrafão do Norte (Pará), y aplicaran cuestionarios estándar a esta población. La medida de efecto utilizada fue la razón de prevalencias (RP) y el análisis multivariable por regresión de Poisson con ajuste robusto de variancia. De los 1023 ancianos estudiados, un 15,4% reportaran IU. Esta prevalencia cambió del 7,9% entre aquellos que no reportaran cualquier otro problema de salud hasta el 27,5% entre aquellos con 80 años o más. El análisis ajustado mostró mayor RP a la ocurrencia de IU entre aquellos con 80 años de edad o más (2,14; 1,51 - 3,04), que sufrieran caídas en las cuatro semanas anteriores a la entrevista (RP = 1,47; 1,02 - 2,01) y que reportaran padecer de tres o más problemas de salud (2,60; 1,38 - 4,91). El no tener estudios se mostró un factor de protección a la IU (RP = 0,52; 0,31 - 0,90) en relación a cuatro años o más de estudios. Se concluye que la ocurrencia de IU se mostró elevada en la población estudiada y asociada de manera independiente a la mayor edad, relato de caída y presencia de comorbidad.

Palabras clave: Anciano. Incontinencia urinaria. Factores de riesgo. Áreas de pobreza.

INTRODUÇÃO

A incontinência urinária (IU) é a perda de urina em quantidade e frequência suficientes para causar desconforto ao indivíduo1. No Brasil, a prevalência de IU entre idosos residentes em área urbana varia de 17%2 a 30,5%3 para homens e de 31,1%4 a 69,5%3 entre as mulheres.

Além da alta prevalência, esta afecção acarreta perda da qualidade de vida desta população, levando-a ao isolamento social e à depressão5,6. Os fatores mais comumente encontrados na literatura como associados à ocorrência de IU entre idosos são pertencer ao sexo feminino, sofrer depressão, ter idade avançada, utilizar psicofármacos e apresentar alguma limitação funcional2,7.

Pela sua elevada ocorrência, por demandar ampla utilização de serviços de saúde e pelos diversos transtornos trazidos ao individuo e à família, a incontinência urinária é um importante problema de saúde entre idosos. Vale destacar ainda que até 2060, a população idosa brasileira deverá quadruplicar, passando de 15 milhões para cerca de 58,4 milhões8. Apesar disso, poucos estudos têm abordado a IU nesta população2,4,7. Mais raro ainda é encontrar estudos em localidades mais distantes dos grandes centros urbanos, onde as condições de vida e a oferta de cuidados em saúde são, em geral, insuficientes9.

Este estudo buscou medir a prevalência de incontinência urinária e identificar fatores associados à sua ocorrência entre indivíduos com 60 anos ou mais de idade residentes em dois municípios pobres das regiões Norte e Nordeste do Brasil.

MÉTODOS

Este estudo foi realizado nos municípios de Caracol, estado do Piauí, e Garrafão do Norte, estado do Pará. Caracol localiza-se na região sul do estado e dista cerca de 650 km da capital Teresina, enquanto Garrafão localiza-se na região norte próximo à divisa com o estado do Maranhão, a 280 km de Belém. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população de Caracol em 2005, quando este estudo foi realizado, era de aproximadamente 10 mil habitantes, 850 dos quais com 60 anos ou mais de idade. Cerca de 40% da população residia na área rural, 42% não eram alfabetizados, 43% dos domicílios possuíam água encanada dentro de casa e um em cada sete domicílios estava conectado à rede pública de esgotos. Neste município, três quartos da população eram atendidos pelo Programa Saúde da Família (PSF) em uma unidade básica de saúde e em um centro de saúde com poucos leitos à internação. Garrafão do Norte possuía aproximadamente 25 mil habitantes, sendo 1.405 com 60 anos ou mais de idade. Um terço de toda sua população residia na zona rural, 40% não eram alfabetizados e somente 9% possuíam água dentro de casa. Nenhum domicílio estava conectado à rede pública de esgotos. O único local de atendimento em saúde da população era uma unidade básica de saúde na sede do município, cuja distância de algumas comunidades ultrapassava 100 km, tendo estrada de terra, intransitáveis em época de chuvas, como única via de acesso10.

Todos os indivíduos com 60 anos ou mais de idade residentes nos domicílios visitados de ambos os municípios foram incluídos neste estudo de abordagem quantitativa e de delineamento transversal. A coleta de dados em cada um destes municípios foi realizada em cerca de oito semanas, entre os meses de maio e setembro de 2005.

A coleta de informações foi realizada a partir de questionário padronizado e previamente testado que foi elaborado pelos pesquisadores deste estudo. Sempre que possível tentou-se aplicar este questionário diretamente ao idoso. Na primeira parte deste questionário foram coletadas informações sobre características demográficas, nível socioeconômico, condições de habitação e saneamento e aglomeração domiciliar. Na segunda parte, foram buscadas informações sobre hábitos de vida, comportamento, utilização de serviços curativos e preventivos de saúde, padrão de morbidade e de consumo de medicamentos. Considerou-se como tendo incontinência urinária o idoso que perdeu urina de forma involuntária, tendo esta situação ocorrida na ausência de esforço.

As estimativas para este estudo foram feitas a partir de nível de significância de 95%, exposição variando de 15% a 40%, risco relativo de 1,7, poder de 80% e erro máximo de 3,6 pontos percentuais. Com base nestes parâmetros, este estudo deveria incluir pelo menos 739 idosos. A estes valores foram acrescidos 10% para eventuais perdas e 15% para controle de potenciais fatores de confusão. Assim, o estudo deveria incluir pelo menos 935 idosos nos dois municípios. Tomando por base os dados do IBGE, visitando 50% dos domicílios em Caracol e 33% em Garrafão do Norte seria possível obter cerca de mil idosos, número suficiente para alcançar o tamanho mínimo de amostra desejado.

Seis entrevistadoras foram selecionadas e treinadas durante cinco dias úteis quanto à leitura dos questionários e manuais de instrução e na aplicação destes questionários através de estudo piloto. Ao final de cada dia de trabalho de campo, cada entrevistador revisava os questionários aplicados e os entregava ao supervisor do estudo para revisão inicial e envio à Universidade Federal do Rio Grande (FURG) para codificação das questões abertas, revisão final e digitação.

Os dados foram duplamente digitados, comparados e corrigidos por meio do programa Epi Info versão 6.0411. A análise de consistência, categorização de variáveis e obtenção da listagem de frequências foi realizada através de pacote estatístico Stata versão 1312.

A análise multivariável baseou-se no modelo hierárquico apresentado no Quadro 1. A significância estatística de cada variável no modelo foi avaliada pelo teste de Wald e pelo teste de tendência linear. Inicialmente, cada bloco de variáveis de um determinado nível foi incluído na análise, tendo sido mantidas no modelo todas aquelas variáveis com valor de p ≤ 0,20.
Neste modelo, as variáveis situadas em um nível hierarquicamente superior ao da variável em questão foram consideradas como potenciais confundidoras na relação com o desfecho, enquanto as variáveis situadas em níveis inferiores foram tratadas como potenciais mediadores da associação. As variáveis selecionadas em um determinado nível permaneceram no modelo sendo consideradas como fatores de risco (ou proteção) para a ocorrência de incontinência urinária mesmo que, com a inclusão de variáveis hierarquicamente inferiores, tivessem perdido sua significância.

Quadro 1 – Modelo hierárquico de análise

Níveis

Variáveis

Primeiro

Demográficas:

(Idade, vive junto com companheiro/a)

Nível socioeconômico:

(renda familiar, escolaridade, aposentadoria)

Segundo

Condições de habitação e saneamento:

(Município que reside, privada, energia elétrica, eletrodomésticos)

Terceiro

Morbidade:

(Problemas de saúde, queda nos últimos 12 meses, uso e gastos com medicamentos)

Quarto

Atividades físicas:

(Caminhada)

Desfecho

Incontinência urinária

Fonte: Elaboração própria

Os princípios éticos como o consentimento verbal informado e garantia de sigilo das informações foram asseguradas a todos os participantes. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Saúde da Universidade Federal do Rio Grande.

RESULTADOS

Foram encontrados 1.041 idosos nos dois municípios, sendo obtidas informações sobre 1.023 deles. Isto representa taxa de respondentes de 98,3%. Noventa e um por cento destes questionários foram respondidos pelos próprios idosos, e o restante por seus familiares ou cuidadores.

Em relação aos dados demográficos, pouco mais da metade (52%) deles residia em área urbana, cerca de dois terços pertenciam ao sexo masculino, três quartos eram de cor da pele parda e 10% preta. Dois terços eram casados, mas 10% viviam sozinhos. Em seus domicílios residiam, em média, quatro pessoas; 70% deles não completaram um único ano de escolaridade e somente 10% concluíram quatro anos ou mais; 8% possuíam renda familiar inferior a 1 salário mínimo mensal (SMM), e somente 20% possuíam renda igual ou superior a 3 SMM; 91% deles estavam recebendo aposentadoria. Cerca de dois terços residiam em casas construídas de tijolos, com 25% delas dispondo de água encanada no seu interior, 60% deles consumiam água proveniente de cisterna/poço e 30% não possuíam qualquer tipo de sanitário. Nenhum dos seus domicílios era conectado à rede de esgotos e 40% não possuíam rádio, televisão ou geladeira.

Treze por cento de todos os entrevistados afirmaram não ter qualquer problema de saúde, enquanto um terço referiu três ou mais problemas. Metade destes que apresentavam problemas de saúde tinham de comprar todos os medicamentos que necessitavam. Destes, 54% consumiam pelo menos um quarto dos seus vencimentos com este tipo de gasto. Onze por cento referiram ter sofrido alguma queda nas quatro semanas antecedentes à entrevista, 7% referiram ter sofrido alguma fratura depois dos 60 anos de idade. Em relação à cobertura vacinal, 20% e 84% já haviam sido vacinados contra gripe e pneumonia, respectivamente. Pelo menos oito em cada dez idosos fizeram alguma caminhada nas últimas quatro semanas anteriores à entrevista, 44% saíram para fazer compras e 32% para passear. Por fim, 95% deles disseram-se capazes de alimentar-se, vestir-se e caminhar sozinhos, e 83% de fazer as tarefas da casa sem o auxílio de outras pessoas. A prevalência de IU nos 12 meses imediatamente precedentes à entrevista foi 15,4% para todos eles, sendo de 14% no sexo masculino e de 17% no sexo feminino.

A Tabela 1 mostra que a prevalência de incontinência urinária variou de 8% entre aqueles que não referiram no momento da entrevista qualquer problema de saúde a 27% entre aqueles com 80 anos ou mais de idade. Após ajuste para diversos potenciais fatores de confusão mantiveram-se associados à ocorrência de IU apenas as seguintes: idade, escolaridade, relato de queda nas últimas quatro semanas e número de problemas de saúde referidos por ocasião da entrevista. Quanto maior a idade do idoso, maiores foram as probabilidades de ocorrência de incontinência urinária. Idosos de 80 anos ou mais apresentaram RP = 2,14 (IC95%: 1,51-3,04) em relação àqueles de 60 a 69 anos. Em relação à escolaridade, os idosos que não completaram um único ano de estudo tiveram RP = 0,52 (IC95%: 0,31-0,90) comparados aqueles com quatro anos ou mais de estudo. Aqueles que sofreram quedas tiveram maior probabilidade de incontinência uriária (RP = 1,47; IC95: 1,02-2,10) em relação àqueles que não sofreram queda. Por fim, os idosos que apresentavam três ou mais problemas de saúde mostraram RP = 2,60 (IC95%: 1,38-4,91)
à incontinência urinária comparados a idosos sem problemas de saúde.

Tabela 1 – Prevalência de incontinência urinária (IU) e análises bruta e ajustada de acordo com as características estudadas entre indivíduos com 60 anos ou mais de idade nos municípios de Caracol, Piauí, Brasil, e Garrafão do Norte, Pará, Brasil – 2005 (n = 1.023)

Variável

Prevalência

de IU

Análise bruta

Análise ajustada

RP (IC95%)

Valor p

RP (IC95%)

Valor p

Município

0,05

0,35

Caracol

13,3%

1,00

1,00

Garrafão do Norte

17,7%

1,34 (1,00-1,79)

1,15 (0,85-1,55)

Idade (anos)

< 0,001*

< 0,001*

60 a 69

12,2%

1,00

1,00

70 a 79

15,8%

1,30 (0,93-1,83)

1,31 (0,94-1,84)

≥ 80

27,5%

2,26 (1,60-3,20)

2,14 (1,51-3,04)

Cor da pele

0,86

0,73

Branca

16,4%

1,00

1,00

Parda/mulata

15,4%

0,94 (0,64-1,38)

1,03 (0,70-1,50)

Preta

13,9%

0,85 (0,47-1,54)

0,83 (0,45-1,52)

Vive com companheiro

0,12

0,95

Não

17,8%

1,26 (0,94-1,69)

1,01 (0,73-1,19)

Sim

14,2%

1,00

1,00

Escolaridade (anos)

0,03*

0,05*

Nenhuma

15,3%

0,48 (0,28-0,81)

0,52 (0,31-0,90)

1 a 3

10,6%

0,70 (0,48-1,02)

0,70 (0,47-1,04)

≥ 4

22,1%

1,00

1,00

Índice de bens (tercis)

0,02

0,09

1 (menor)

17,8%

1,01 (0,73-1,40)

1,04 (0,74-1,46)

2

10,9%

0,62 (0,42-0,91)

0,69 (0,46-1,02)

3 (maior)

17,6%

1,00

1,00

Recebe aposentadoria

0,02

0,30

Não

21,6%

1,51 (1,07-2,13)

1,25 (0,82-1,90)

Sim

14,3%

1,00

1,00

Caminhou último mês

0,06

0,62

Não

19,6%

1,36 (0,98-1,89)

1,09 (0,78-1,52)

Sim

14,4%

1,00

1,00

Queda no último mês

0,01

0,04

Não

14,4%

1,00

1,00

Sim

23,8%

1,62 (1,12-2,34)

1,47 (1,02-2,10)

Número de problemas de saúde

< 0,001*

< 0,001*

Nenhum

7,9%

1,00

1,00

1 a 2

12,8%

1,61 (0,86-3,04)

1,58 (0,83-2,99)

≥ 3

22,6%

2,85 (1,52-5,33)

2,60 (1,38-4,91)

* Teste de tendência linear

DISCUSSÃO

Este estudo mostrou prevalência de incontinência urinária de 15% entre os idosos estudados. Foram significativamente associados a esta ocorrência as seguintes variáveis: idade; escolaridade; relato de queda nas últimas quatro semanas; e presença concomitante de comorbidade.

Ao interpretar estes dados é preciso ter em mente que se trata de um delineamento transversal e sua principal limitação se encontra no fato dos resultados referirem-se a meados de 2005. Contudo, se trata de uma população que reside bem distante de grandes centros urbanos, igualmente pobre e com grande dificuldade de acesso aos serviços de saúde, sobretudo em Garrafão do Norte. A ausência, ainda nos dias de hoje, de dados disponíveis acerca de problemas urinários nesta população em municípios com tais características justifica esta publicação.

A IU é uma condição com elevada prevalência, que afeta em até 50%13 uma população em crescimento vertiginoso. Embora o envelhecimento não seja sua causa, as mudanças decorrentes do processo de envelhecer têm o potencial de afetar o trato urinário baixo e provocar sintomas que podem aparecer sem patologia aparente14. Os prejuízos para os indivíduos impactam na qualidade de vida, predispõem às infecções perineais, genitais e do trato urinário, problemas de pele, interrompem o sono e comprometem o convívio social7.

A idade é tida como o principal determinante do estado de saúde do idoso14. Por esta razão, esta variável tem se mostrado fortemente associada a diversos eventos desfavoráveis à saúde do idoso2. No caso da IU, isto se deve provavelmente a alterações estruturais no músculo detrusor e pelo desenvolvimento de fibrose e hipersensibilidade à norepinefrina, que leva a contrações involuntárias deste músculo15. Além disso, de forma indireta, o processo de envelhecimento leva à redução da capacidade neurológica e cognitiva, à perda de mobilidade adequada, instabilidade postural, dentre outros fatores que podem contribuir para a ocorrência de IU15.

Neste estudo, a escolaridade do idoso mostrou-se associada à condição de incontinência urinária. Sabidamente, a escolaridade é um importante determinante da classe social. Níveis de instrução mais altos implicam melhores condições de sobrevivência e maior capacidade de cuidar adequadamente da sua saúde16. Assim, quanto maior a escolaridade, menor a ocorrência de doenças, inclusive de infecção urinária entre idosos3,7. No entanto, nestas duas localidades, observou-se o oposto: quanto menor a escolaridade, menor a RP para ocorrência de IU. Este achado destoa dos demais estudos. É interessante notar que a grande maioria dos idosos (70%) não sabia ler nem escrever. Destes, cerca de dois terços eram fisicamente muito ativos, trabalhavam na agricultura, e relativamente saudáveis – referiram, no máximo, um único problema de saúde. É possível que esta proteção entre os de menor escolaridade decorra, na verdade de serem mais fisicamente ativos. Neste estudo, caminhar, embora que limítrofe, mostrou-se protetor em relação à ocorrência de IU. Há que destacar aqui que não houve investigação detalhada das atividades físicas entre estes idosos. Esta possível associação entre atividade física e ocorrência de IU nesta faixa etária merece melhor investigação através de delineamentos mais apropriados como os de coorte ou de casos e controles para avaliar adequadamente esta relação.

É importante salientar que a IU representa um sinal de alarme para fragilidade nos idosos e está associada com risco aumentado de declínio funcional. A presença de incontinência urinária induz o idoso a diminuir a prática de atividades de vida diária, principalmente das atividades instrumentais, tornando o idoso vulnerável e frágil17. Esta fragilidade se refere a uma síndrome caracterizada pela diminuição da reserva energética e pela resistência reduzida aos estressores18. Subjacentes à síndrome da fragilidade, estão as alterações neuromusculares, desregulação do sistema endócrino e disfunção imunológica18. É importante a identifcação precoce dos idosos frágeis para prevenção de eventos adversos, como descompensação de doenças crônicas, quedas, institucionalização, incapacidade e morte17.

A ocorrência de queda indica não somente a deterioração da condição de saúde como também é uma das ocorrências com importante repercussão sobre a saúde do idoso. Esta associação já foi descrita em outros estudos19,20. A queda, mesmo quando não resulta em fratura, evento não raro nesta faixa etária e de maior gravidade, leva o idoso à restrição parcial ou total de atividades físicas. Isto diminui a perda de líquido que não através da urina, facilita o acúmulo de urina e, por conseguinte, favorece a perda involuntária, mesmo na ausência de esforço físico14.

O número de problemas de saúde também mostrou relação direta com a ocorrência de IU. Verificou-se elevada RP à ocorrência de IU entre aqueles que relataram pelo menos um problema de saúde. Isto pode ser tanto efeito direto da doença ou de para-efeito da utilização de algum medicamento. Neste caso, aparece mais comumente associada à depressão, acidente vascular cerebral, diabetes mellitus, obesidade, asma e uso de narcóticos2,6.

CONCLUSÃO

Os dados aqui apresentados mostram que a incontinência urinária é de ocorrência frequente na população estudada. Não bastasse a idade ser o principal marcador da deterioração das condições de saúde dos indivíduos, o acesso restrito por parte desta população aos serviços de saúde, quer seja pela baixa oferta ou pela dificuldade de acesso geográfico, as repercussões sobre o seu bem estar são mais importantes ainda. Há estudos que mostram que a IU não é uma condição inexorável à idade, que se o indivíduo dispuser de condições adequadas não deverá ser por ela afetada, ou se o for, será em muito menor proporção e gravidade.

Especificamente para os idosos incluídos neste estudo há evidente necessidade de aumentar a oferta de cuidados em saúde, sobretudo no município de Garrafão do Norte. Maior importância deveria ser dada, por parte dos profissionais de saúde, a investigação, ocorrência e manejo de incontinência urinária, sobretudo entre idosos que apresentam outros problemas de saúde. Nestes, o risco de ocorrência de IU é substancialmente maior. Aumentar o suporte aos que vivem sozinhos através de programas sociais poderia proporcionar-lhes uma melhor qualidade de vida. Ainda, seria interessante aprofundar estudos sobre atividade física e IU utilizando delineamento com maior poder de inferência sobre causalidade de doenças. Por fim, uma nova avaliação nestas localidades seria oportuna na investigação destes e de outros diagnósticos atuais de saúde, a fim de comparar indicadores e verificar a evolução dos problemas relacionados à IU nesta população tão vulnerável.

COLABORADORES

1. Concepção do projeto, análise e interpretação dos dados: Juraci A. Cesar.

2. Redação do artigo e revisão crítica relevante do conteúdo intelectual: Juraci A. Cesar,
Luana P. Marmitt e Alessandra C. Dziekaniak.

3. Revisão e/ou aprovação final da versão a ser publicada: Maria Aurora D. Chrestani.

4. Ser responsável por todos os aspectos do trabalho na garantia da exatidão e integridade de qualquer parte da obra: Juraci A. Cesar e Luana P. Marmitt.

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Recebido: 1.4.2017. Aprovado: 31.7.2018.


a Médico. Doutor em Epidemiologia. Docente da Universidade Federal do Rio Grande. Rio Grande, Rio Grande do Sul, Brasil.
E-mail: juraci.a.cesar@gmail.com

b Nutricionista. Doutora em Ciências da Saúde. Docente da Universidade do Oeste de Santa Catarina. Joaçaba, Santa Catarina,
Brasil. E-mail: luanamarmitt@gmail.com

c Médica. Mestre em Saúde Pública. Docente da Universidade Federal do Rio Grande. Rio Grande, Rio Grande do Sul, Brasil.
E-mail: alessandradzk@gmail.com

d Médica. Doutora em Epidemiologia. Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil. Email: machrestani@uol.com.br

Endereço para correspondência: Universidade Federal do Rio Grande. Rua General Osorio, s/n, centro. Rio Grande, Rio Grande do Sul, Brasil. CEP: 96201-900. E-mail: luanamarmitt@gmail.com