MULHERES SILENCIADAS: MORTALIDADE FEMININA POR AGRESSÃO NO BRASIL, 2000-2017

Palavras-chave: Mulheres, Agressão, Mortalidade, Violência contra a mulher, Estudos de séries temporais

Resumo

Os óbitos femininos por agressão são ocasionados, muitas vezes, por indivíduos do sexo oposto, parceiros ou ex-parceiros das vítimas, havendo situações de abuso físico, sexual e psicológico. Neste trabalho, objetiva-se analisar a tendência temporal de mortalidade feminina por agressão e seus fatores no Brasil, de 2000 a 2017. Trata-se de um estudo de série temporal sobre mortalidade feminina por agressão, em todas as faixas etárias. Extraiu-se os dadosstema de Informação sobre Mortalidade, e as informações populacionais foram obtidas por meio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Investigou-se as variáveis raça/cor de pele, idade, anos de estudo, local de ocorrência dos óbitos e o capítulo XX da CID-10, nas categorias com códigos de X-85 a Y-09 e Y-87. No período estudado, 75.113 mulheres morreram em decorrência de agressões. A maior parte delas tinha de 20 a 39 anos, autodeclaradas pardas (49,3%), com quatro a sete anos de estudo (27,7%), com óbito registrado com maior frequência em via pública e no domicílio (28,8% e 28,6%, respectivamente). No mesmo período, ocorreu um aumento na tendência da taxa de mortalidade feminina por agressão no Brasil (annual percent change – APC: 1,09; IC95%: 0,07;2,12). Houve aumento percentual nas agressões por queimaduras/fumaça (APC: 4,99; IC95%: 3,25;6,76), objeto cortante (APC: 3,07; IC95%: 1,72;4,43) e enforcamento e afogamento (APC: 1,96; IC95%: 0,71;3,23). Conclui-se que o aumento na tendência da mortalidade feminina por agressão em algumas regiões do país, especialmente entre mulheres jovens, mostra a necessidade de políticas públicas e sociais mais adequadas às especificidades das diferentes regiões do Brasil.

Biografia do Autor

Conceição de Maria Castro de Aragão, Universidade Federal do Piauí

Psicóloga. Mestranda em Saúde e Comunidade. Teresina, Piauí, Brasil.

Márcio Denis Medeiros Mascarenhas, Universidade Federal do Piauí

Enfermeiro. Doutor em Ciências Médicas. Docente e Coordenador do Programa de Pós-graduação em Saúde e Comunidade da Universidade Federal do Piauí. Teresina, Piauí, Brasil.

Malvina Thaís Pacheco Rodrigues, Universidade Federal do Piauí

Contador. Doutor em Controladoria e Contabilidade. Docente no Programa de Pós-graduação em Saúde e Comunidade da Universidade Federal do Piauí. Teresina, Piauí, Brasil.

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Publicado
2020-03-31
Seção
Artigos originais de temas livres